Momentos do Cascavel #14: lá onde o busão não passa

Comecei o trajeto pelo Jockey Club, relíquia da tradicionalidade decadente de São Paulo. O meliante murmurava as direções com seus lábios inchados a cada incentivo físico que eu dava. Logo se limitou a fixar o olhar no nada e apontar as direções.

Passei pelas torres do Shopping Cidade Jardim, que pairam como um Olimpo sobre as favelas em volta. Passei por onde o odor da merda do rio Pinheiros se une ao da merda corporativa da Berrini; pela ponte Estaiada e a Rede Globo e outro templo do consumo, o Shopping Morumbi. Os cariocas tiram sarro que o shopping é a praia do paulista. É difícil discordar.

E a partir dali alguns condomínios e zonas comerciais ainda resistem, acuadas fortalezas de riqueza e medo. Mas agora sim passei a fronteira a partir de onde realmente começa a zona sul, a do cotidiano difícil. As árvores passam a aparecer mais nas margens da avenida do que nos outdoors. E primeiro vem a ponte chamada Transamérica e em seguida a apropriadamente chamada de Socorro.

E depois a represa Billings, que serve ao mesmo tempo de reservatório metropolitano de água e esgoto a céu aberto, tomada por manchas marrons de algas itinerantes. O fedor pode ser sentido a quilômetros dependendo do humor do vento.

E quando você acha que já desceu ao extremo sul da cidade ainda há muito sul para descer. É Jardim Esmeralda, Jardim Malia, Jardim Presidente, Jardim Iporanga, Jardim Santa Edwiges, Jardim Rosalia, Jardim Itatiaia, Jardim Alpino, Jardim São Rafael, Jardim Casa Branca. A tão paulistana piada de dar nome de “Jardins” a oceanos de concreto.

As luzes das casas e postes se tornaram mais rarefeitas, dando espaço ao breu dos pastos e matagais pontuados por um ou outro carro depenado. E cheguei em Parelheiros, um dos campeões de homicídios de São Paulo devido à tomada pelo tráfico. Aqui aldeias Guarani tentam se apegar aos farelos do que era a cultura, com seu território retalhado pelo Rodoanel. Aqui os carteiros se recusam a entregar os presentes de Natal sem escolta armada. Eu não os culpo.

E mais ao sul ainda, a Cratera de Colônia. Certo dia um meteorito caiu por aqui e criou uma cratera de três quilômetros e meio. Vinte milhões de anos depois pessoas foram morar por lá.

Lá onde o busão não passa.

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