Momento do Cascavel #11: eu não esqueci

O sequestro de Marina Sabrin já entrou no sexto mês. A família avisou a polícia logo que ela sumiu. Uma voz cavernosa ligou e pediu um milhão. A família aceitou. O clã, dono de metade dos supermercados da cidade, entregaria até dez vezes o valor. Receberam primeiro uma foto da garota amordaçada com uma expressão de pavor. Depois um feixe de seu cabelo loiro, seguido de uma calcinha na terceira semana, uma orelha na quinta. E depois mais nada.

Não houve mais contato. As blitzes policiais invadiram as casas de “suspeitos” cujo único crime era ser pobre e morar na periferia. Nada encontraram. Vieram da Colômbia investigadores particulares com experiência em negociar com as FARC. De nada adiantaram. Os apelos frequentes na TV dos pais aos prantos foram respondidos com silêncio.

Menina de 16 anos, rica e bonita. A protagonista perfeita para um desses sequestros que “choca o país”. Por um tempo, pelo menos, até entediar imprensa e opinião pública e se juntar à pilha de atrocidades esquecidas na cidade. Essa cruel alquimia do tempo que transmuta tragédia humana em estatística. Sempre tem algo mais fresco para se indignar na internet.

Mas eu não esqueci.

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